14 outubro 2020

[Resenha] Nos Olhos de Sara | Cleu Nacif | Independente


A obra “Nos Olhos de Sara” aborda a história da jovem revisora de textos Sara, um misterioso andarilho, sua melhor amiga Bia e acontecimentos surreais. A moça está desmotivada no trabalho e sua chefe a repreendeu por estar assistindo Netflix durante o expediente. Sara teve um breve relacionamento com Digão, um antigo colega de escola. Ele se torna obsessivo passando a importunar Sara sempre que pode. Quando a vida de Sara cruza com a do andarilho o destino realiza coisas inacreditáveis e caro leitor, leia! A história que você irá encontrar vai muito além de um simples olhar!

Eu fiquei muito surpresa ao conhecer a escrita de Cleu Nacif, pois ela conseguiu em 132 páginas me tocar profundamente. Sabe aquele livro com narrativa simples, mas que é riquíssimo de valiosas lições? Posso dizer que foi uma das minhas melhores leituras de 2020! Obrigada Cleu e a LC Agência de Comunicação pela leitura coletiva maravilhosa, singular eu diria!

A obra trata de temas densos e necessários serem abordados, como: situação de vulnerabilidade social, maus-tratos animais, preconceito, amizade, amor, empatia, abuso sexual e psicológico, excesso de bebidas alcoólicas, confiança, violência doméstica, fuga de crianças, amor próprio e respeito.

“As pessoas pareciam ficar repudiadas por qualquer coisa que lhes lembrasse de que existiam outras pessoas e animais sofrendo e com fome enquanto elas iam para casa ao encontro de um farto jantar com suas famílias saudáveis e felizes.”

Os personagens são bem distintos e todos interessantes. Sara parece estar perdida dentro da roda vida, pois algumas atitudes que ela toma têm consequências cruéis ou um tanto peculiares. O “andarilho” é forte, decidido e irá te presentear com uma chuva de realidade. Bia é uma amiga alegre, baladeira e está sempre pronta para ajudar nos momentos mais difíceis. Gengibre e Mitsy são animais fenomenais. Digão é quase um ogro, chato, inconveniente e tenho ranço eterno. Léo é o vizinho dos sonhos de qualquer pessoa. Ele é tão perfeito que você precisa ler e descobrir se de fato alguém pode reunir tantas qualidades em um único ser, será?

“Na noite, o objetivo maior era tornar- se invisível para sobreviver."

Nacif descreve a narrativa com tanta verdade que podemos sentir os detalhes, perceber todas as descrições ambientais, refletir sobre situações tão cotidianas quanto aos dos moradores de rua, preconceito, julgamentos e falta de empatia. Você levaria um morador de rua para sua casa? Você daria um forte abraço em alguém sujo e vulnerável?

“Na rua, ou você é invisível ou dá medo ou nojo nos outros. No final, são essas suas opções.”

Por fim, super indico a obra fluída, reflexiva, emocionante e que nos ajuda a lidar com nossos medos e preconceitos, porém tenha muito cuidado com quem você coloca no ambiente sagrado do seu lar. Algumas vezes pode ser uma grata surpresa e em outros momentos pode ser um caminho sem volta. Veja além dos olhos de Sara, veja além do olhar!








30 setembro 2020

[Resenha] Daqui Pra Baixo | Jason Reynolds | Intrínseca

RESENHA POR CHIHIRO_LITERARY

William vai nos contar as regras do local e a sua dor. Ele já viu muitos morrerem e agora foi a vez do seu irmão Shawn, o seu exemplo. No momento, para ele, só basta seguir as regras, que são: 1° Não Chorar; 2° Não Dedurar; 3° Se vingar.

"Se alguém que você ama aparece morto, encontre a pessoa que matou e mate também."

Assim, ele pega o elevador para seguir as regras, mas enquanto o velho aparelho desce pelos andares do seu prédio, pessoas vão entrando e conversando com ele.

Desde o início essa obra mexeu muito comigo, pois fiquei bastante pensativa sobre tudo o que aconteceu com o personagem. Sobre a verdade que ele traz, da vida de um morador da comunidade, suas dores e anseios.

Viver em comunidade não é fácil, eu sei disso. Eu como os personagens do livro, nos acostumamos ao tiroteio, sabemos exatamente o que fazer quando ocorre um. E algumas vezes nem nos surpreendemos com as mortes, porque aqui, como no livro, é comum.

"O Shawn morreu. Estranho demais. Triste demais. Mas acho que não tão inesperado o que acaba sendo ainda mais estranho, e ainda mais triste."

O livro é doloroso, daqueles tristes, mas necessários, que tem uma ótima reflexão. A obra é toda em versos e também muito visual. Até mesmo as ilustrações do elevador fazem muito sentido e completam a história. Devido ao estilo da narrativa, a obra se tornou muito fluída e rápida, acredito que todos conseguiriam ler a obra rapidamente em apena um dia.

O final é daqueles de respirar fundo e acredito que cada um terá a sua interpretação. Não sei se todos vão entender ou gostar, mas eu realmente indico e espero que vocês leiam.

Jason Reynolds é autor best-seller do The New York Times, vencedor do Kirkus Award e do Walter Dean Myers Award. Estreou na literatura em 2015 e, com Fantasma, foi finalista do National Book Award de literatura jovem em 2016.






[Resenha] A Última Festa | Lucy Foley | Intrínseca

A obra “A Última Festa” nos conta a história de nove amigos que sempre comemoram o réveillon juntos, porém algo sinistro irá acontecer e apenas oito voltarão para casa depois da festa. As divergências já começam na viagem de trem e o grupo percebe que o que há de comum entre eles além de um passado, feridas que nunca foram cicatrizadas e segredos altamente destrutivos. Em meio à grande festa, o elo arrebenta. Alguém está morto e uma nevasca forte impede o resgate. O assassino está entre eles, pois ninguém pode entrar ou sair. Não é alucinante? Leia e descubra quem é o assassino e os motivos que levaram amigos se tornarem inimigos!

Lucy Foley construiu uma narrativa empolgante, cenário perfeito para curtir e também propício para um crime. Gostei da escrita da autora, a forma na qual ela criou todo o suspense e interessante ver quer por muitas vezes podemos estar ao lado de pessoas tóxicas e de amizades altamente letais.

“Algumas pessoas, submetidas a determinada pressão, fora dos ambientes aos quais estão habituadas e nos quais se sentem confortáveis, não precisam de muito incentivo para se transformar em monstros.”

A história é contada em flashbacks a partir das perspectivas dos vários personagens. Esse encontro entre passado e presente é interessante e deixa o leitor apreensivo, pois não sabemos quem matou ou quem é a vítima. Qualquer um pode ser suspeito. Adorei o clima de mistério, tensão e poder ver o pior lado do ser humano.

"Jamie acreditava que as pessoas são basicamente animais civilizados. Que os instintos básicos ficam escondidos sob uma camada de verniz social; sufocados, controlados. Mas que, em momentos de estresse, mesmo não tão grandes, nosso animal interior tem a chance de irromper."

Como a obra gira em torno do crime, assassino e amigos, não posso contar muito sobre os personagens, pois uma característica mais forte já evidenciaria o suspeito. Vi que algumas pessoas criticaram o final por achar pontas soltas, mas eu gostei da forma como foi encerrado.

“Ás vezes a solidão é a única maneira de recuperar a sanidade.”

Indico a leitura para os amantes de thrillers, mas não esperem algo que seja fenomenal. A autora nos deixa pensativa: tempo de amizade pode ser considerado sinônimo de melhores amigos?








17 setembro 2020

[Resenha] Amor é uma palavra como outra qualquer | Francisco Castro | Editora Pausa

A obra “Amor é uma palavra como outra qualquer” nos conta a história de Carla, que organiza toda a sua vida ao redor do amor. Ela faz tudo por amor e constrói uma imagem de dependência total de ser amada pelo esposo, porém certo dia o seu marido diz adeus e a deixa totalmente devastada. Ele parte para viver com outra mulher e o seu amor perfeito de filmes românticos cai por terra. Para piorar toda a situação de Carla, o corpo de sua funcionária está no chão de sua sala, sem vida. Um aparelho celular, um bilhete e um corpo na entrada do apartamento, leia e descubra como a palavra amor pode ser como outra qualquer, topa?

Eu não conhecia o escritor Francisco Castro e me encantei com o estilo de narrativa dele. Castro é editor e escritor, atualmente CEO da Editorial Galaxia. Possui uma longa história e seu trabalho destaca inúmeros livros. Ele já recebeu praticamente todos os prêmios literários de Galicia e algumas de suas obras entraram na prestigiosa Lista IBBY, que reconhece os melhores livros do mundo no campo da literatura infantil e juvenil.

Quando escolhi o livro para ler eu estava bem crente que o livro seria autoajuda e tive uma enorme surpresa, pois a obra envolve mentiras, segredos, amor próprio, relacionamentos, assassinatos, descobertas e livre arbítrio.

“Carla não pensa muito nessas coisas ou em qualquer tipo de coisa, muito menos quando coloca os fones do celular e se isola com sua música, como uma adolescente (o que não é, ela já  está casa dos quarenta); quando coloca seus fones de ouvido em um volume insalubre, buscando, e provocando a si mesma, uma certa forma de inconsistência.”

A personagem Carla é uma mulher que deveria ser madura, porém a busca pelo amor e pelo príncipe encantando a fez ficar carente de afeto. Seu ex-marido não a elogiava, não era carinhoso e não dialogava com ela e esse fato a deixou com o amor-próprio totalmente abalado e com a chegada do personagem Cesar não só a sua vida muda, mas o seu interior e a sua percepção do que de fato é o amor.

“Foi por isso que ela tivera tanta dificuldade em assumir que já não o era. Que já tinha acabado. Que não havia mais chocolate. Que a chocolataria tinha se quebrado.”

Super indico a obra, pois a escrita de Francisco Castro é ímpar, diferente e consegue bagunçar nossa sequência lógica das coisas. Uma escrita madura, personagens bem construídos e reflexões necessárias. Passei a achar também que o amor é como uma palavra qualquer, pois o que vale são os sentimentos, respeito, companheirismo, harmonia, liberdade e a felicidade em amar a si mesmo.